Reprodução

O caso das crianças em Araioses, que morreram ao segurar em uma cerca eletrificada, no domingo, 19, põe luz a um problema antigo no interior do Maranhão. Cercas elétricas em pastos e áreas rurais causam mortes e são a ponta de um problema de grilagem de terra e invasões a áreas públicas de proteção ambiental. Movimentos da sociedade civil apontam falta de fiscalização por parte do estado e uso indevido de espaços públicos. Já o governo afirma que fiscaliza, mas pede que a população denuncie.

Segundo o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), a situação é preocupante principalmente na Baixada Maranhense. As cercas são parte da estratégia para impedir o acesso de pessoas a espaços públicos, como Áreas de Proteção Ambiental (APAs). “Cercam e eletrificam essas áreas que deveriam ser públicas. Impedem que pessoas entrem e usem”, afirma a coordenadora técnica do Movimento, Ana Carolina Mendes.

Como na baixada os campos são alagados, a eletrificação pode chegar até a água e causar um problema maior. “Temos imagens da última operação em que campos inteiros estão divididos por cercas eletrificadas. Muitas estão próximas de estrada, o que aumenta o risco de contato de crianças”, ressalta a assessora técnica do MIQCB, Ariana Silva.

Mesmo com tamanha repressão, o movimento já catalogou 20 boletins de ocorrência desde 2015. O último foi feito na semana passada, na Delegacia Agrária. “Desde 2015, realizamos denúncias constantes, mas nenhum inquérito foi aberto para investigação dos casos”, afirma a coordenadora.

Grande parte dos casos aconteceram nos municípios de Bom Jesus e São Caetano. Em todos as denúncias as histórias são sempre as mesmas. Os líderes de movimentos agrícolas no interior do estado afirmam receber ligações no meio da noite. “Atendi uma ligação no meio da noite. Uma voz masculina disse que ia me matar se não parasse com as denúncias”, é o que diz um dos vários boletins registrados. Segundo Ana Carolina, as ameaças acontecem à luz do dia. “É na frente de todo mundo. Muitas mulheres são seguidas e amedrontadas durante o acesso a essas áreas”, menciona.

Uso das cercas

As cercas elétricas são comumente usadas nos campos agrícolas com a função de controle de animais a uma área restrita, segundo o zootecnista Nélio Freitas. No Comunicado Técnico da Embrapa (nº 44), as cercas elétricas são definidas como um controle psicológico. “Após ter sido sensibilizado e registrado em sua memória o efeito desagradável do choque, a cerca gera uma barreira psicológica que se torna mais eficiente que a própria barreira física dada pela cerca convencional”.

Mas tanto o profissional quanto o Comunicado alertam para os riscos. “É importante destacar a correta utilização de um sistema de aterramento na saída do aparelho eletrificador, para que se estabeleça um circuito de retorno ao passar pelo corpo do animal”, diz o estudo.

O que diz as entidades

Sobre o último caso envolvendo as crianças em Araioses, a Secretaria de Segurança Pública diz que abriu inquérito e que testemunhas estão sendo envolvidas. “Segundo a Polícia Civil, o responsável pela instalação da cerca elétrica continua foragido. No entanto, o advogado já anunciou que ele pretende se entregar às autoridades nos próximos dias”, diz a nota.

Confira a matéria completa no Jornal O Imparcial de hoje, 27.