Foto: Petronilio Ferreira

Todos os nomes de moradores entrevistados foram alterados por questão de segurança

Era finalzinho da tarde quando Danilo estava empinando pipa na rua. A brincadeira acabou terminando mais cedo do que ele esperava. Duas pessoas, que buscavam o primo dele alvejaram Danilo com 7 tiros no peito, por não acharem o alvo final. Minutos mais tarde, a poucos quilômetros dali, Tatiana do Carmo, teve a perna atingida por uma bala perdida próximo a rua de casa. Ela também não resistiu aos ferimentos e morreu a caminho do hospital.

As 2 mortes no Complexo do Coroadinho no último domingo, 24, fez Secretário de Segurança Pública no Maranhão, Jefferson Portela, anunciar uma grande operação policial. A área de 32 vilas, 18 bairros, viu a chegada de 100 policiais na manhã da última terça, 26. Mas um dia após o início do que o secretário chamou de “presença do estado”, o contingente de policiais diminuiu e a normalidade voltou ao local.

“Agora tem 40 policiais fazendo a ronda pela manhã”, afirma o Major Serra, comandante do policiamento no Complexo do Coroadinho. Até o momento, não houve troca de tiros contra bandidos. “Desde quando iniciamos a operação tivemos a apreensão de uma espingarda calibre 12 e animais silvestres”, informa o Major. Segundo Serra, ainda não foi apreendido drogas na região. “Como houve bastante divulgação, o tráfico vai recuar muito”, comenta.

Unidades de Segurança Cidadã: uma UPP em São Luís

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Há exatamente uma semana, o adolescente Marcos Vinícius Silva foi ferido com um tiro nas costas durante um confronto entre policiais e traficantes no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. A morte foi mais uma para os altos dados de homicídios na capital carioca e denuncia a falência da política de Polícia Pacificadora da região. Com isso, abriu caminho para um longa guerra entra facções rivais por território dentro da ‘Cidade Maravilhosa’.

Em outra região do país, a quase 3 mil quilômetros de distancia, a realidade parece ser a mesma. O Complexo do Coroadinho é local de disputa entre facções rivais que buscam ampliar o território. Isso acaba interferindo na vida de quem mora em uma das 32 vilas do complexo. “As vezes tem gente que entra em uma região dominada por um grupo contrário e acaba sendo alvejado”, comenta o Major Serra.

O Major explica que muitas dessas mortes são covardes. Tiros pelas costas, ou até mesmo confrontos entre os próprios marginais dificulta a identificação dos culpados. “Geralmente elas são represarias. Quando morre alguém de um lado, sempre morre de outro”, analisa. No meio dessa confusão, a USC desvia a função básica e acaba enxugando gelo. “As vezes a gente fica aqui como separador de torcida, no meio do fogo cruzado entre as duas facções”, aponta. Ele que comanda o policiamento no complexo, explica que os assassinatos ocorrem nos horários de menor policiamento. “As vezes eles aproveitam o horário de almoço, de troca”, comenta.

USC: seria um sucesso?

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A festa de inauguração do prédio da Unidade de Segurança Cidadã (USC) anunciava que o governo estava implementando um novo tempo para a segurança pública do Maranhão. Seguindo o exemplo da política de UPPs do amigo de partido Sério Cabral (MDB), Roseana anunciava o novo prédio como um centro comunitário de convergência onde os moradores devem colaborar com a polícia. Após 4 anos, o sonho de uma USC integrada com a comunidade ainda parece distante.

Os moradores do complexo têm medo de falar sobre a operação. Quando indagamos alguém nas ruas do Bom Jesus, uma cara de repulsa sempre vem como resposta. Onde impera a Lei do Silêncio do Tráfico, é difícil falar com alguém. Isso acaba dificultando uma maior inserção da USC na região. “Tem alguns bairros aqui, até o fato de a viatura parar na porta de alguém acaba fazendo uma certa inimizade”, afirma.

Com muita luta, conseguimos falar com um morador. Para José Sousa, a operação deu uma calmaria a região. “Isso vai ser bom”, comenta. Segundo José Sousa, o bairro é tranquilo. “Uma vez ou outra acontece essas coisas. Mas aqui é tranquilo. O que mata é o tráfico”, solta. Ao ser perguntado sobre a USC ele responde:  “Uma vez queriam tirar ela daqui, mas entramos na justiça e eles ficaram”, lembra.

Maria de Jesus, moradora hoje moradora do Bom Jesus, acaba vendo a conversa e participa. “Não deixo meus filhos desceram para o Coroadinho”, afirma. Segundo ela, o mesmo tendo morado para as áreas de baixo por muito tempo, o medo de passar por lá é grande. “Tenho parente lá, mas meus filhos só entram lá comigo”, diz.

Os projetos

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Na contramão do domínio do tráfico, o major Serra lembra que tenta implementar vários projetos com as escolas. Uma tentativa de mostra os jovens um outro caminho. “Hoje os heróis dessas crianças são pessoas de facção, não trabalhadores”, comenta o major Serra.   Segundo o major, o policiamento da Ronda Escolar, tem modificado essa realidade.  “Hoje temos uma nova perspectiva da polícia dentro das escolas”, diz.

Os policiais acabam se envolvendo na história de crianças do complexo. Muitos fazem cotas para comprar um brinquedo novo aos moradores, campanhas de arrecadação de cestas básicas. “O problema é que nem sempre isso é bem visto pelos traficantes”, reconhece o major.

Segundo ele, um trabalho mais humanitário acaba sendo dificultado devido a grande quantidade de ocorrências. “Nós trabalhamos com 2% da comunidade envolvida com o tráfico. Era para a gente está trabalhando com 98% da população não envolvida”, frisa.

Mesmo com as dificuldades de inserção, o major não perde a esperança. “Estamos pensando em implantar, depois da operação, o projeto ‘A Praça é Nossa’. Queremos ocupar uma praça por dia durante a noite, por uma semana”, anuncia o major Serra. Ele explica que o objetivo do projeto é levar o desporto e laser a praças públicas da região. “Isso é para que as pessoas voltem a frequentar a rua”, afirma o Major.