LITERATURA

Miriam Leitão lança livro infantil sobre ancestralidade

Ilustração de Marclla Tamayo para o livro as aventuras do tempo

Reprodução

As histórias infantis chegam para Miriam Leitão via crianças. Dessa vez, foi a sobrinha-neta, Mel, quem deu a ideia para As aventuras do tempo, que a autora lança hoje. Mel pediu à avó, Beth, irmã de Miriam, que contasse uma história da infância. Um passado comum na fazenda dos avós, ou bisavós de Mel, emergiu da narrativa e acabou por motivar o livro, o quarto da autora destinado ao público infantil.

Quando recebeu uma mensagem da irmã contando do interesse da pequena Mel, Miriam se deu conta de que havia ali um universo de temas. “Eu vi que ela estava entendendo o tempo e pensei que o tempo seria uma coisa interessante para matéria-prima de história infantil”, conta. Por acaso, ela estava a caminho de Caratinga, no interior de Minas Gerais, cidade natal na qual visitaria um irmão. As lembranças de infância percorreram a memória de Miriam e tomaram forma de história. “E essa história foi sendo escrita na minha cabeça”, lembra.

“As aventuras do tempo” se passa numa fazenda à beira do Rio Doce, do qual a pequena Mel mantém certa distância por conta do perigo representado pela correnteza, mas também por ser território dos índios krenak, que querem manter longe a mão destruidora do homem branco. Brincadeiras de fazenda, ao ar livre, fazem parte do cotidiano de Mel, mas é no rio, sobre o qual pairava uma ponte sistematicamente destruída pelos índios, que se dá a parte mais bonita da narrativa. As aventuras do tempo trata de amizade, identidade, diálogo, compreensão das diferenças e reconhecimento do outro, temas urgentes para um Brasil mergulhado em intolerância.

Miriam conta que algumas das histórias narradas no livro realmente ocorreram, caso da ponte queimada pelos krenak para evitar o acesso do homem branco a seu território. “Eles não queriam a travessia do rio pelo pessoal que estava pressionando a floresta. E eles chamam o Rio Doce de Watu, então tinha isso, eles queimavam a ponte”, lembra Miriam. “Recentemente, falei com um krenak que dizia que os avós viajavam o bastante para chegar lá e queimar a ponte. Hoje, o que existe é de mata preservada é o Parque do Rio Doce e um pouco da reserva dos krenak.”

Falar dos índios, da mata, dos animais e de identidade em linguagem infantil e ilustrada é uma maneira, também, de criar uma memória para as crianças. Temas sociais e ambientais costumam estar muito presentes na produção infantil de Miriam. Em 2013, ela olhou para os céus para escrever A perigosa vida dos passarinhos pequenos e, em 2015, quis alertar para o racismo em Flávia e o bolo de chocolate. Agora, é para a preservação da memória que ela se volta. “Eu queria fazer também uma homenagem ao ato de contar histórias para crianças, porque assim você está ajudando a construir o imaginário coletivo, a memória coletiva”, explica.

As ilustrações ficaram por conta da artista Marcella Tamayo, que brincou com as noções de gerações e continuidade para criar o mundo imagético do livro.

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